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Rodrigo

Excêntrico, elástico, seguro, um pilar da equipa. Frontal como um penalty, desta vez tem a palavra Rodrigo, o nosso bem-amado keeper.
LGC: Rodrigo, és um dos elementos mais velhos do plantel, um dos capitães de equipa e, acima de tudo, uma voz respeitada no balneário. Qual é o balanço que fazes da época do Lusitano até este momento?
RF: Primeiro que tudo gostaria de agradecer a oportunidade de poder expressar a minha opinião perante os sócios e simpatizantes do Lusitano.
A época tem sido na globalidade bastante positiva, pois estamos na luta pelo titulo, jogamos no próximo Domingo o acesso à final da Taça Dinis Vital, temos tido prestações agradáveis e que têm chamado muita gente de volta ao Campo Estrela. Em suma continuamos dentro dos objetivos que nos foram propostos no primeiro dia de trabalho, e principalmente sinto o plantel com vontade de trazer trofeus para a vitrine do clube.

LGC: E para ti, na tua posição específica, como sentes que tem sido a integração de uma linha defensiva que, não obstante ser das menos batidas a nível nacional, tem uma média de idades tão baixa?
RF: Eu penso que o facto de o Lusitano ter uma defesa bastante jovem foi o principal argumento para que há 3 épocas o Luís Valente e o Nelson Valente me terem desafiado para este projecto. Confesso que me dá uma grande alegria ver que jogadores como o Nobre, Quito, Rogério etc. cresceram como atletas todos os dias. É claro que existe também o reverso da medalha, que é a responsabilidade que tenho para que quem jogue à minha frente esteja sempre atento e concentrado no jogo, mas isso faz parte do desafio diário e para o qual trabalhamos durante os 10 meses que tem a época.

LGC: Aquele pontapé de saída que fazes, deixando a bola bater antes no chão, é algo que já não se vê no futebol atual. Considerarias que isso é uma imagem de marca tua? Há alguma razão específica?
RF: Sem duvida que sim, é de facto um gesto técnico que praticamente ninguém utiliza nos dias que correm. Mas existe uma explicação bem simples para o facto de eu sempre ter chutado a bola “à Inglesa”. Eu até aos 15 anos sempre fui o guarda redes mais franzino dos planteis que fazia parte no Vitoria de Setúbal, e tinha alguma dificuldade em acompanhar os meus colegas mais calmeirões em termos de pontapés para os avançados. Então um treinador meu, o Prof José Baião, começou a dizer-me para experimentar a bater as bolas desta forma e foi a maneira que encontrei para atingir a mesma distância que os outros colegas conseguiam.

LGC: Em vários jogos salvaste a equipa com defesas quase impossíveis. Estás como o vinho, quanto mais velho, melhor?
RF: Com a idade vamos perdendo atributos físicos, mas vamos ganhando atributos psicológicos muito valiosos. Eu acredito que não vou falhar, pois os jogadores quando temem o erro acabam mesmo por falhar, ou seja, estamos mais perto de que o erro aconteça, pois estamos a desviar o foco para algo que ainda não aconteceu e por vezes isso é a morte do artista. Vejo hoje em dia a minha disponibilidade mental para treinar e jogar como uma das minhas maiores armas contra o envelhecimento.

LGC: Em termos pessoais quais são as tuas ambições para esta época? Onde vês o Lusitano chegar?
RF: Em termos pessoais tenho vários objectivos, tais como terminar a época novamente sem nenhuma lesão, gostaria também que a minha mãe me visse jogar futebol (é um sonho que tenho, pois ela possivelmente há 20 anos que não me vê dentro de um campo de futebol), poder festejar títulos pelo Lusitano junto do meu filho e esposa. Em termos coletivos vejo o Lusitano a conseguir a dobradinha, há muito valor dentro deste plantel, e sei que o foco está sempre na vitoria, pelo que seria injusto ambicionar menos do que a conquista do Campeonato e da taça.

LGC: A saída da anterior equipa técnica apanhou muita gente de surpresa. Queres comentar esse facto?
RF: Sim gostaria de comentar até porque quem priva comigo sabe que eu não gosto de fugir a qualquer tema e se for questionado opino sempre (bem ou mal) sobre o que quiserem.
O Lusitano é um clube diferente dos demais, pois derivado à historia recente da instituição houve um grande afastamento de muitas pessoas que gravitavam em torno do clube, e, isso levou ao quê? A que dentro deste barco apenas ficassem quem verdadeiramente ama o Lusitano. Logo, o clube tornou-se um clube de afectos, pois os que ficaram uniram-se de tal forma que criaram o que nós chamamos a FAMILIA. E o André Barreto tornou-se um dos rostos principais desta FAMILIA. Mais, outras pessoas da equipa técnica que saiu têm na sua história de vida uma ligação fortíssima ao clube, caso do Batalha que foi jogador e tem na sua família pessoas que jogaram muitos anos no Lusitano, o Joel e o Violante que têm vários anos de treinador nesta casa, o Manel Machede que tem a sua esposa como sócia há 40 anos, tem filhos a jogar na instituição, fez parte do projeto, etc… e que são pessoas muito estimadas e acarinhadas junto das bases de apoio. Aliado a isso vêm os resultados e quer queiramos quer não, a equipa luta em todas as frentes para ganhar os títulos em questão, tudo isto com trabalho da equipa técnica. Eu pessoalmente sei que a relação SAD / equipa técnica não era a melhor, pelo que esta decisão vai ser daquelas que o tempo se encarregará de julgar e ditar quem tinha ou não razão. Quanto ao grupo de trabalho, foi uma saída muito sentida por nós, pois mais que treinadores saíram amigos e isso nas FAMILIAS sente-se sempre.
Futebolisticamente falando, venha quem vier para nos treinar será ajudado e respeitado como todos os que estão dentro do Clube, pois o objetivo é termos um Lusitano vencedor.

LGC: Tens noção que algumas das tuas defesas deixam os adeptos com os cabelos em pé. Sempre foi uma característica tua de alguma forma brincar ou ter esta atitude jovial nos jogos?
RF: O trabalhar com um plantel jovem faz-nos também sentir mais jovem, e aí tenho que agradecer aos meus colegas, pois são eles neste momento a minha inspiração para que eu consiga ter um prazer enorme em jogar futebol. É claro que neste momento e com a experiência que acumulei ao longo dos anos consigo “saborear” os 90 minutos em toda a sua plenitude e por vezes saem-me coisas em campo que o à vontade com que me sinto dentro das 4 linhas permitem que as faça.

LGC: E o teu futuro que reserva? Vais ser um Peter Shilton e jogar até aos 40 e muitos?
RF: Não! De todo! Esta entrevista surge para mim num momento bastante oportuno e posso adiantar que por motivos familiares, irei morar em setembro para Setúbal novamente. Se tudo correr normalmente espero acabar a minha carreira em maio/junho deste ano, e será um orgulho poder encerrar a carreira tendo o Lusitano como último clube. Penso que ainda teria condições para jogar mais um ou dois anos, mas na verdade quem está mais próximo de mim sabe que eu tenho outra paixão, que é a corrida e estou-me a mentalizar particularmente para que em outubro de 2018 comece um objectivo de vida, que é o de correr duas maratonas por ano, começando com a Maratona de Lisboa em outubro de 2018. Levarei um ano a preparar-me para tal situação, pois sendo eu diabético tipo 1 desde 2008, quero sensibilizar as pessoas para esta doença através da corrida, para mostrar que para nós diabéticos não existem limites nem restrições.

LGC: Tens algum ídolo na tua posição específica? Quem e porquê?
RF: Tenho um Guarda-Redes que marca a minha vida. Poderá não ter sido o keeper mais mediático do mundo, mas foi aquele que por vários motivos me motivou a ocupar esta posição em campo. O seu nome é Tomislav Ivkovic, ex-GR do Sporting e da Jugoslávia (viria também a representar a Croácia). Se forem a Setúbal e perguntarem pelo Rodrigo guarda-redes ninguém sabe quem é. Mas se perguntarem pelo Ivkovic ou pelo Iko muita gente já sabe quem é. Esta é a minha alcunha em Setúbal. Quando era mais novo, quando defendia remates muitas vezes gritava “IVKOVIK”, tal era a admiração que tinha pelo homem! Lembro-me da RFA dar 4 à Jugoslávia no Mundial de 1990 e por cada golo que entrava parecia que era eu que os estava a sofrer. Um dos momentos altos da minha vida foi quando ele foi jogar para o Vitoria de Setúbal, os responsáveis do futebol juvenil do clube levaram-me dentro do balneário para o cumprimentar, esse momento foi inesquecível.

LGC: Queres deixar alguma mensagem aos adeptos?
Eu quando entrei dentro deste Clube aprendi uma palavra ao qual achei graça e nunca mais me esqueci: “SONHALIDADE” – do sonho à realidade. Acho que isto diz muito daquilo que tem que ser o projeto Lusitano, passarmos à realidade tudo aquilo que é sonhado. Acredito que com o passar do tempo haverá uma maior sintonia entre Clube e SAD e quando tudo entrar em velocidade cruzeiro, a cidade de Évora voltará a ter um clube nas Ligas Profissionais. Pessoalmente penso que terá de haver estratégia para que se passem os menos anos possíveis no CNS, pois essa divisão está muito mal estruturada e é só perder dinheiro.

Aos Lusitanistas primeiramente quero agradecer todo o carinho que me dispensam no dia-a-dia e fazer-lhes a promessa de que este grupo de trabalho tudo fará para elevar o bom nome do clube, sempre com o olhar firme nas conquistas do passado para alavancar as conquistas do futuro.

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